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6º Capítulo - Que Deus te dê uma vida difícil

por Catarina Portela, em 10.05.13

 

Fotógrafo: Octávio Meira

http://esposendeimagens.blogspot.pt/

 

 

Que Deus nunca me facilite a vida, que não me dê tudo o que desejo.

Quero que me torture emocionalmente colocando à minha frente obstáculos, e que me faça verter lágrimas salgadas até encher mais um oceano.

Quero que me aperte o coração de vez em quando, e que me sussurre ao ouvido tudo o que eu não quero ouvir.

Após o mais ridículo trambolhão, quero sentir que Ele brinca comigo, e que fica feliz sempre que me levanto,

Quero mostrar-te as cicatrizes mentais que Ele fez, e as marcas na pele escuras que demoram tempo infinito até que desapareçam, e orgulhar-me de já ser passado.

Quero sentir que estou viva, que me levanto todos os dias, mesmo que a minha vontade seja acordar daqui a séculos.

Quero lutar, crescer até que me dou-a a alma. Quero andar sobre espinhos e chegar ao fim do terreno com vontade, de mesmo assim, te esganar porque foste fraco para sofreres por mim.

E quero, quero Sim. Envelhecer e ter rugas, e mesmo assim, sentir-me bonita, diante o espelho. Ver ali a criança que sou hoje. Sem medo de dedos ridículos apontados à celulite, ou das histórias do arco-da-velha com que me piquei.

Quero ter 90 anos, ser uma corcunda e ter peles descaídas, mas com vontade a aprender, e alegria de Viver.

E quero, quero sim. Rir-me sarcasticamente do teu lugar longínquo. Tu que te proteges atrás de etiquetas e de vida fácil.

E tu, Tu sim, precisas bem mais de Deus que eu. Porque eu vivo com horrores, num mundo de dores e mesmo assim aprendo a levantar-me e sorrir a todos, e tu?

Tu treinas ao espelho, como é a melhor forma de sorrir. Como será mais natural o teu sorriso, enquanto o meu brota de forma natural, com as mais banais situações do dia-a-dia.

Quero rir-me na tua cara quando falas dos cêntimos que te roubaram no super-mercado, ou da nota de 10 euros que perdes-te ou gastas-te não sei em quê!

E falares que tens na tua família, uma mãe solteira, quando uma criança é sempre uma alegria, e tu lhe chamas problema!

E ouvir dizer que o teu avô teve cancro aos 86 anos, e ver todos os dias jovens e adolescentes a lutar contra essa doença.

Vou abanar a cabeça e dar o meu ar cínico, se não tiveres dinheiro comprar ou oferecer uma Playstation portable, quando aqui mesmo ao lado, no mesmo planeta que tu, existem crianças que fabricam os seus próprios brinquedos.

E vai-me apetecer muito, que fiques sem emprego, se te queixas que trabalhas 8 horas por dia, e chegas a casa com tanto para fazer, quando existem pessoas, mais novas e mais velhas que dariam tudo por esse trabalho. E outras que em vez de 8 trabalham 16 horas para pagar as contas e tem… como tu… uma vida!

Tu na tua vida fácil, que andas de mão dada com a sorte, que Deus tenha misericórdia de ti, e te dê um dia difícil, para que pelo menos um dia, e apenas um dia, saibas o que é o dom da Vida, o dom do Ser Humano, e o sabor que dá, Aprender a Viver, Aprender a sorrir.

Que Deus te dê, um dia difícil (para que sintas, a vida fácil que tens).

 

 

 

 

O Homem não sabe o que são problemas, porque apenas vêem, os seus problemas. Um erro fatal para matar a felicidade deles, e dos que amam.

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publicado às 22:00

6º Capítulo - Os defeitos

por Catarina Portela, em 09.05.13

 

Fotógrafo: Octávio Meira

http://esposendeimagens.blogspot.pt/

 

 

Os Seres Humanos são a raça mais perfeita de entre todos os seres da Terra. Arriscaria a dizer que também é a que possui mais defeitos. Aos meus olhos, esse mesmo facto torna-nos etéreos.

 

É magnífico amar o defeito de alguém. Aceitá-lo. Viver com o passado marcado. Pensar e projectar um futuro brilhante. Receber críticas admiti-las, e não as corrigir. Fruto de séculos de adaptação... Nem todas as mudanças são necessárias para que cada um de nós se sinta melhor.

Eu amo cada traço desajeitado. Cada palavra fora do sítio. Cada dança do além. Cada velho que anda atrás de meninas novas. Cada homem novo atrás de mulheres velhas. Adoro quando vejo crianças a brincar aos adultos, e saber que vão desejar aquele momento, da mesma forma que naquela altura desejam o vestido cor-de-rosa que está na montra mais próxima. Gosto dos meninos que pegam nas bonecas. E das meninas que jogam futebol.

Amo cada traço que a sociedade não aceita, que deita fora como lixo. Amo cada pessoa que não acredita na vida. E sou provavelmente a primeira a dizer. – Se a tua vida não vale nada, então não a vivas. Mas antes, dá uma volta ao mundo, para perceberes o que é sobreviver com cada dia contado.

Gosto do fato com jeito apressado, do coração que se esconde atrás de uma farda. Gosto da bondade e da justiça, que desperta como ânsia de protecção. Gosto do adolescente que existe por detrás do adulto. Da piada no momento menos correcto. Gosto do desajustado. De tudo o que me faz crer que a vida não é monótona e repetitiva. Gosto de tudo o que me faça sentir viva…

Por isso admiro os problemas, e o que eles são capazes de fazer por nós.

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publicado às 22:00

6º Capítulo - Explicações da vida.

por Catarina Portela, em 08.05.13

 

Fotógrafo: Octávio Meira

http://esposendeimagens.blogspot.pt/

 

 

Ouvem-se passos, Susana chegou.

Fecha-se a porta lentamente, afinal nenhum desejava aquela conversa.

Talvez ganhar um tempo ajudasse a que a noticia fosse mais facilmente suportável, mas não.

Telmo estava calado. Aliás, esteve todo o tempo calado.

Eram estranhos debaixo do mesmo tecto, amores escondidos por horrores passados. Eram pedaços de vida desencontrados, ancorados aos problemas que teimam em nascer.

Susana senta-se à mesa de jantar.

         - Telmo, anda para aqui! – Gritou Susana, apressando o clima de tédio.

Telmo, sem a mínima vontade, moveu-se em passos lentos.

Os dois sentados…

 

         - Parece que está na hora meninos. Devo-vos uma explicação. – Fez-se um compasso de espera. Íris olhou-os com ternura. Eles fixavam o olhar ao longe.

         - Antes de mais quero-vos pedir desculpa. Vocês talvez não compreendam agora, o que é um relacionamento. Como é facilmente desfeito, se não detectarmos a tempo, um defeito. Vocês não compreendem o que se luta durante uma vida para manter um casamento ou uma união. O que é preciso ouvir, suportar. Digamos que Eu e o Pai, deixamos que a relação fosse morrendo, e não falamos sobre isso, porque a rotina já era habitual, e já eram tantos anos que, talvez achássemos que não fosse necessário.

         - Mas nada te dava o direito de nos envergonhares desta forma! Sabes hoje na escola, ninguém foi capaz de me olhar de frente… Sabes quantos zumbidos se ouviam por entre os corredores? Sabes o que foi ver a mãe abraçada a um homem que era “só amigo”? Ver o Pai a embebedar-se por tua culpa!? Sabes o que foi ficar ao lado do Telmo e dizer-lhe que tudo vai ficar bem, sem eu acreditar um segundo nisso? Onde é que tu estavas mãe? Afinal qual é a tua família? – O rancor, o ódio, o desabafo de Susana, abafava as paredes e gelavam Íris que nunca se tinha sentido tão mal em toda a sua vida.

         - Filha… Eu sei que errei. Errei em não ter discutido com o teu Pai os problemas. Errei em deixar o Paulo separar-se da Patrícia. Mas filha! Acredita em mim! Eu nunca dei a Paulo uma única esperança para que ele fizesse tudo aquilo. Alias, se ele achasse que podia ficar comigo, então nunca se tinha tentado suicidar! Eu nunca mais tive contacto com ele…. Um dia, ele contou-se que se ia separar e que me amava. Mas o que eu lhe disse foi para ele lutar por Patrícia, nunca por mim.

         - Eu não quero saber disso, por mim, neste momento… Olha, faz o que quiseres. Afinal agora nada pode ser pior do que tudo o que já fizeste! – Susana levantou-se da mesa, pegou no casaco no telemóvel e saiu de casa…

 

Telmo ali ficou, apático a ver todo aquele movimento sem ser capaz de reagir.

         - Mama… - quebrou o silêncio…

         - Diz Telmo.

         - Tu e o Pai, vão-se separar? – Para Telmo era a única pergunta que realmente importava. Telmo lá queria saber se o amor era muito, pouco ou nenhum. Queria lá saber se o Pai trabalhava horas a fio sem poder chegar a casa a tempo de cuidar da mãe e de a ajudar. Ele nem queria saber do cansaço da mãe, nem do abraço na ponte. Telmo só queria a família debaixo do mesmo tecto. Chegar a casa e voltar a ver a mãe a preparar o jantar, ver o pai a chegar bem por detrás dela e dar-lhe um beijo escondido. Queria sorrir cada vez que derrotava o pai a jogar consola. Provar à mesa todos os petiscos que a mãe preparava, numa mesa composta por quatro lugares preenchidos. Não queria mudar, não queria mais confusões. Já não lhe bastava ver a irmã cada vez mais magra, e ouvi-la a vomitar e a fechar-se no quarto. Agora também lhe iam tirar a família?

         - Telmo, querido. A mãe gosta muito de ti. E o Pai também te adora. Aconteça o que acontecer isso nunca vai mudar. Eu prometo-te que seja qual for a nossa decisão, tu nunca serás um problema. Tu e a mana, foram os melhores momentos da minha vida e da vida do Pai. Nunca te esqueças disso filho.

Telmo chorava agora nos braços da mãe. Enquanto Íris lhe acarinhavam o rosto, chorava também.

Era demasiado doloroso ver os seus filhos a sofrer por uma situação que ela tinha criado, e sobretudo que sentia que podia ter evitado.

 

Quando a separação está próxima e chega o momento de explicar o que aconteceu, há sempre alguém que não pode ser esquecido. A vossa vida de adultos condiciona a vida de todos os que vivem convosco. É importante salientar que também condiciona a felicidade daqueles que lá habitam. Talvez seja pedir muito que não sejam egoístas. Estes erros que são apenas vossos, colocam em jogo, bem mais do que a vossa imagem!

Vocês valem mais agora, no momento em que são necessárias explicações, explicações que não podem vir, anos e anos depois do sucedido.

 

A maior parte, fecha-se no quarto, sai para beber uns copos, ou esconde-se naquele local que lhe acalma a mente. Questionam-se sobre aquele momento, o momento em que falta tudo.  

Ninguém sabe quando começou a faltar o carinho, nem porquê. Ninguém os vai encontrar ali. Nem amanhã, nem no próximo mês. Tudo à procura de respostas. Tudo à procura que o tempo passe sem deixar marcas, e sem ser necessário enfrentá-lo.

 

As respostas só aparecerão quando pensarem no “agora” como se fosse passado.

 

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publicado às 22:00

6º Capítulo - Teoria da Compensação

por Catarina Portela, em 07.05.13

 

Fotógrafo: Octávio Meira

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Quando falamos de uma separação, um divórcio, do fim de uma relação que nos marcou, falamos de um estado mental próximo da loucura. Que nos muda, e nos marca para sempre. Que nos torna mais objectivos e mais fortes. Ou mais fracos e confusos. Um estado mental que não depende só de ti, mas também da força que te resta depois do desgaste que sofreste. Ficar sozinho torna-te mais fraco? Tu decides!

 

Na maioria das vezes, não são corrigidos erros que se cometeram no relacionamento. Até se provocam mais e mais.

Como aquela mesa repleta de dominós previamente colocados ao alto, que por acidente, (ou não), se toca numa peça, e todo um resto cai de forma progressiva.

Quando um pedaço de ti cai, cai muito de ti naquele dia. Nos dias seguintes continuará a cair muitos mais pedaços teus, mas também irás construir novas realidades.

 

É nessa hora que te defines finalmente, como Homem, como Mulher, como Humano. Na hora do desespero.

Olhar para trás e ver tudo o que ficou. 

É uma taça de ouro, daquelas que se guardam em cima do armário, mesmo em frente à porta de entrada, para olharmos para ela, todos os dias.

O orgulho de ver, ali mesmo, a força de ultrapassar, de resistir. De sobreviver…

 

Quando o fim é próximo, o tom de voz raramente se mantém. Os gestos raramente são ternos, a palavra raramente consegue ser compreendida.

Por vezes a insatisfação nasce daquele beijo que não se deu. Daquele toque meigo que não se sentiu. Daquele “Bom dia” acompanhado de um abraço... E por incrível que pareça, tudo isto e muito mais, pode ser deixado por muito menos. Pela incerteza, pela frase “gosto de ti”, e pode até ser deixado pelo golpe baixo do “tem mais dinheiro” . Tão fácil de corrigir pequenos gestos.

Prioridades moldadas pela falta de tudo, falta de definição da tua própria personalidade.

Enquanto não fores tu próprio e criares o que desejas, seres o que queres, procurarás sempre compensar falta do que tens, com alguém que possui o que desejas.

 

Teoria da compensação.

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6º Capítulo - Meia garrafa de Whisky e uma música.

por Catarina Portela, em 06.05.13

 


Fotógrafo: Octávio Meira

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Paulo e Íris por prevenção foram encaminhados para o Hospital Distrital do Montijo. Paulo permaneceu lá a noite inteira para análises físicas e psiquiátricas, enquanto Íris teve alta, horas depois de ter sido analisada.

Íris não tinha coragem de entrar em casa naquela noite. Sabia que a partir daquela noite tudo seria diferente. Precisava de pensar, estar só. Desprender-se de tudo e analisar a situação sem intervenção de ninguém.

O automóvel conduziu-a até à Praia dos Moinhos em Alcochete. Estacionou, ligou o rádio, onde as noticias faziam o balanço daquela terrível noite.

- Mas tudo acabou bem. – Respirava ela bem fundo.

Vasculhou os Cd’s que tinha no carro, queria um som calmo e relaxante. 9 crimes de Damien Rice suou naquele automóvel repetidas vezes.

 

Íris não imaginava como ia encarar Filipe e os seus filhos. Provavelmente iria ser o fim do casamento. Mas até que ponto é que Íris se sentia preparada para entrar já numa nova relação, assumindo já compromissos?

Sentia que tinha falhado como mãe, como mulher de família. Estava completamente perdida, sem noção da realidade. Aquela noite foi, a noite mais longa da sua vida… Não tinha o telemóvel consigo, estava completamente incontactável. Decidiu falar primeiro com o marido. Assim que passassem das 8 da manha, ela iria para casa. Duvidava que Filipe quisesse encarar o mundo do trabalho depois de todo o impacto da notícia. Portanto só estariam eles dois, com as suas verdades.

Passou pelo sono. Decidiu desligar o rádio. Descansar as poucas horas que lhe restava antes do confronto.

Abria os olhos de 10 em 10 minutos.

- São oito menos dez, é melhor pôr-me a caminho.

 

O friozinho na barriga, quase que lhe parava o coração. Queria saber como estava Paulo. Mas primeiro tinha que ter uma conversa com Filipe.

Chegou a casa. Olhou-se ao espelho retrovisor. Estava péssima. Olhos inchados, vermelhos, tristes. Cara pálida, completamente abatida. Foi subindo os degraus, com receio do que estaria por detrás da porta da sua própria casa.

Abriu a porta. Filipe estava na sala. Tal como ela previa, também ele não tinha pregado olho. Tinha uma garrafa de Whisky quase vazia. Filipe raramente bebida. Íris sentou-se ao lado dele. Mas não falou logo.

- Vais ficar calada? Não tens nada para dizer? – Começava Filipe a discussão.

- Filipe, não acho que estejas no teu melhor estado para falarmos

- Pois não estou, e graças a quem? Diz-me lá quando tempo andas a gozar com a minha cara?

- Não gozei com a tua cara. Eu… Eu… Andamos mal há tanto tempo... Diz-me, há quanto tempo não saímos como família, não vamos passear e divertir-nos. Há quanto tempo não me abraças e dizes que me amas. Há quanto tempo não fazemos amor, como outrora! Tu achas que eu queria que isto acontecesse? Não queria Filipe, garanto-te.

- Estás-me a dizer que a culpa é minha? Fui eu que provoquei tudo isto?

- Não estou a dizer nada Filipe. Estou-te a dizer que te sinto distante, e eu própria fiquei distante. Ambos não soubemos o que fazer para tornar a relação melhor. Simplesmente não falamos do assunto. E agora parece-me tarde demais para resolver tudo o que já destruímos.

- Íris, eu não quero mais ninguém. Tu não compreendes. Eu sei que também não fui correcto, e errei. Confesso que errei, vezes demais até. Sei que não te dei a atenção que merecias, e tu sempre foste uma mulher exemplar. O trabalho, retirou-nos muito tempo, nós adaptamo-nos à rotina, e o mundo continuou a girar. Mas eu estou disposto a tentar, por mim, por ti, e pelos nossos filhos.

Íris estava já com as lágrimas a escorrer pelo rosto. Abraçou Filipe. Choraram os dois como crianças. Íris limpou-lhe o rosto.

- Achas que vale a pena lutar, sabendo que a nossa relação nunca mais será a mesma? – Perguntava ela, com a pouco esperança que lhe restava.

- Talvez seja melhor darmos um tempo… Eu saio. Vou para casa dos meus pais por uns tempos. Não nos vamos precipitar. Mas antes queria que me respondesses a uma pergunta. Gostas do Paulo?

- Não te posso dizer, com certezas, o meu sentimento por ele. A única certeza que tenho, é que ele não me é indiferente. Á medida que eu e tu nos fomos afastando, tenho pensado mais nele. Quando o vi naquele estado, sabia que ele estava mal por minha culpa. Ele tinha decidido acabar o relacionamento com Patrícia a pensar que eu faria o mesmo. Eu nunca lhe dei esperanças Filipe. Mas ele sentiu, talvez, que eu não lhe era indiferente. Para além de falarmos e tomarmos café, que é algo banal, não aconteceu nada. Tomava café com ele como tomo com qualquer fornecedor ou qualquer colega. – argumentava Íris.

- Ele não acabaria o relacionamento, se não lhe tivesses dado esperanças!

- Mas acabou, Filipe! E eu fiquei assim como vês… E tu? Tu nem querias saber de mim. E ele, pronto a amar-me… Era só eu chamar por ele, que eu tenho a certeza que ele viria.

Filipe calou-se. A lucidez veio ter com ele. Não se sabe se pelo álcool., ou pelo distúrbio mental que sofreu nas últimas horas, mas pensou que já há vários anos que não tinha uma verdadeira conversa com Íris. Que não falavam deles, que não se manifestavam… E mesmo sabendo que aquela conversa não era a mais desejável. Sentiu-se bem. Sentiu que podia já não ter a mulher ao seu lado, mas teve certamente uma amiga que estava disposta a chegar a um consenso, sem lhe fechar a porta.

- Falas com os miúdos? Eu ontem, não consegui. Não sabia o que dizer, nem o que fazer. – Retorquiu Filipe

- Falo.

- Desculpa Íris.

- Desculpa, peço-te eu, Filipe.

Levantou-se Íris e foi ver o estado da casa à espera que ninguém a tivesse arrumado. Surpreendentemente tudo parecia normal.

- Susana. A minha menina Susana. – Sussurrou por entre os dentes com mais algumas lágrimas.

Filipe entrou no quarto, e começou a fazer as malas.

Reinava o silêncio dentro de casa.

Um silêncio diferente. Um silêncio que corta a cada folgo de ar que se respira. Um silêncio sem futuro, que persegue as divisões da casa lembrando o motivo de cada som calado. Não se espera ouvir vocês, já se falou tudo, já se chorou mais. Resta a projecção do futuro. A mente começa a trabalhar de forma rápida, a imaginar um novo rumo, uma nova vida.

 

Ambos debaixo do mesmo tecto. Separados pelo acontecimento, depois de mais de dezassete anos juntos. Dezassete anos….

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publicado às 22:00

6º Capitulo - Castelo de Cartas

por Catarina Portela, em 29.04.13
Fotógrafo: Octávio Meira

 

Na casa Martins, tudo passeava de cima para baixo, de baixo para cima.

O telefone não parava de tocar. O telemóvel de Susana entupia-se de mensagens. A notícia de última hora, e toda a emoção do reencontro entre Paulo e Íris foi acompanhado pelo País.

 

Filipe morria de vergonha. A solteirona da Daniela sobrecarregava o telemóvel dele com chamadas.

Filipe, nem queria saber... Estava em pânico.

Ao aproximar-se de Daniela, ele tinha perdido o contacto real com Íris. Nem se apercebeu do sucedido. Vinham-lhe agora à mente todas as queixas de Íris. O rosto triste dos últimos tempos. Filipe questionava-se se teria alguma culpa, em tudo o que aconteceu. Como pode ele condenar Íris, se afinal ele próprio a traí-a?

Ninguém aceita uma traição de forma leve. A mente dele suportava um ódio transcendente, que atingiu a todos lá em casa.

 

Aquele homem paciente, racional e protector pegou na mesa de jantar, como quem pega num prato. E deixou a mesa completamente de pernas para o ar! Susana não sabia o que fazer. Agarrou Telmo e levou-o para o quarto dela. Nenhum deles conseguiu chorar. Era tudo irreal.

         - Os pais vão-se separar, não vão? – Telmo questionava a irmã.

         - Não sei Telmo, não sei. Mas aconteça o que acontecer, tens-me sempre contigo.

         - Será que o pai já sabia?

         - Não sei pequeno, não sei… - Susana incrédula esperava agora uma justificação da mãe.

         ( - Como? Porquê? Que será agora da nossa família? - Pensava ela). Questões sem resposta.

 

Susana desligou o telemóvel. Pensou na rotina que eles passavam já há anos. Pensou nas vezes em que incomodou os pais com os problemas dela. E por segundos imaginou-se a viver na mesma casa que o Sr. Paulo, ou então a viver sozinha com o pai e com Telmo.

Parou. Esqueceu. Calou os pensamentos. Adormeceu a mente. Tinha que dar atenção a Telmo.

         ( - Telmo não pode fazer disto um drama.)

         - Bem, enquanto o pai joga futebol lá fora com a nossa mesa de jantar, e que tal se jogarmos a qualquer coisa no computador, ok?

Telmo sorriu. Estava maravilhado com a calma da irmã. E isso tranquilizava-o.

 

Um corredor gélido de emoções sombrias, atingiam mais uma família sólida. Pelo menos, assim era até então. Nada faria supor esta tragédia, escondida num coração de um homem fraco, movido pela vontade forte.

 

         Por mais adulto e independente que sejas, existem sempre pessoas a quem deves satisfações. Não deves satisfações porque alguém é teu dono, ou porque alguém manda na tua vida.

Deves satisfações, porque a tua vida interfere em muitas outras.

A família funciona como aquele castelo de cartas que se constrói devagarinho, e acreditem ou não, esse castelo muito facilmente pode ruir. A tentativa de diálogo não pode ser limitada aos que estão no topo do castelo, aos que achas que atingiste primariamente, porque na base do castelo de cartas, estão alicerces importantes para a sua preservação.

Há bombas que caiem, muitos dos soldados não resistem. O castelo corre o risco de ficar fraco, e sem estratégia definida. No entanto a mesma bomba pode apenas danificar o edifício sem o fazer ruir, e unir todos os que estão no castelo em prol de uma sobrevivência. O mesmo acontece com a família, exactamente o mesmo…

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publicado às 21:40

5º Capítulo - A Perda

por Catarina Portela, em 26.04.13

 

Fotógrafo: Octávio Meira

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Por vezes voltar atrás é tarde demais para criar de novo a felicidade que se deseja, mas vale sempre a pena tentar.

Sentir a proximidade da perda, ou sentir a perda total de algo ou alguém, pode despertar-nos a lucidez do real valor que esta possuía para nós. Pode despertar em nós a fórmula de tudo o que precisamos e não precisamos, para sermos felizes.

Um simples pedaço do passado que volta para nos assombrar, ameaça trazer tristeza. Chega com a memória e traz o calor típico do Verão, o barulho do mar, o silêncio que tudo dizia, e olhares que arrepiavam e melancolia dos dias felizes e da falta de preocupação.

Quando essa melancolia chega, carrega consigo o arrependimento do que somos, do que temos, e do que traçamos como importante para nós.

Enganamo-nos vezes sem conta ao longo deste caminho, repetindo a nós mesmos uma lição que gostávamos que fosse a correcta. Educamos a nossa mente a aceitar tudo o que foi criado, como verdade absoluta.

Afinal, a Verdade é somente aquela que desejamos ver.

Quando a decisão é lutar, agarramo-nos ao abraço que queremos que seja eterno, pedimos que o pesadelo acabe, e que acordemos uns meses, uns anos à nossa frente. Ultrapassar esse momento, só depende de uma pessoa… tu.


Nem todos os sorrisos do teu esforço serão apreciados. A nossa a alegria não pertence a todos, mas deveria…

Projectas as lágrimas que serão criadas, projectas os insultos e as meias verdades. És capaz de ver o rosto de dor, os cochichos absurdos de gente sem nome. Vês mil dedos indicadores tímidos a apontarem para ti, sem imaginares qual é o assunto, visto que, de um momento para o outro, todos sabem da tua vida, mesmo não sabendo absolutamente nada a teu respeito. Tudo se assimila rapidamente como se não houvesse amanhã.

O tempo curará as mais duras marcas do coração, disfarçando cicatrizes que imaginamos que nunca iriam sair. Mas a dor não se esquece, esvanece. Vem com o vento, vai quando a tempestade acabar.

 

Contamos sempre com a mão daqueles, que em tempo ajudamos. Contamos com todos os que conheceram a mesma dor que nós. Contamos que alguém que quer o nosso sucesso tanto quanto o deles.

Esse alguém, nem sempre aparece, ou então está presente como se fosse uma luz de Natal. Tanto está lá, como te deixa completamente abandonado. São imensas, as pessoas pisca-pisca.

Todas estas adversidades podem, devem, e são ultrapassadas, bem ou mal. Não importa, se todos dizem que erraste, ou se após anos da tua vida ainda te aparecem a perguntar:

 - “Não te arrependeste?"

 - "Não penses nisso?"

 - "É mesmo isto que desejaste para a tua vida?”

 

Nesse dia não se pensará em outro assunto. Vais-te questionar, vais recordar, vais sorrir ou vais chorar.

No final, não há certezas, mas há um objectivo. Continuar, até chegar à meta…

Só tu és dono da tua vida, só tu decides o que deves ou não fazer com ela. O importante é preparares todos os que estão à tua volta, para a mudança. A mudança da tua vida, das tuas prioridades. Se eles compreenderem, ficaram. Se eles não compreenderem, serão os primeiros a desistirem de ti.


continua...


CATARINA PORTELA

 

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publicado às 21:40

5º Capítulo - A Ponte

por Catarina Portela, em 25.04.13

 

Fotógrafo: Octávio Meira

 



Íris acaba de chegar ao início da ponte Vasco da Gama. A estrada está completamente interdita a veículos. Íris deixa o carro na fila, e decide aproximar-se a pé. Começa a correr mal vê a confusão e o desespero de Paulo.

- Com licença, com licença. Deixem passar. Eu conheço o Paulo! – Assim se contorcia ela pelo meio da curiosidade louca da população que se estendia por alguns quilómetros enquanto o colete-de-forças da polícia de intervenção segurava a multidão.

Íris gritava já em lágrimas, enquanto as pessoas que lá estavam, achavam que ela era a ex-mulher de Paulo.

         Íris, tão perto, tão longe…

 

Perto de Paulo, Rita tentava a todo o custo que ele passasse para o lado anterior da ponte.

         - Paulo, não há necessidade de tudo isto. Os outros repórteres já se afastaram, a polícia, a GNR, os Bombeiros e a cruz vermelha já estão cá. Nada de mal lhe pode acontecer porque será socorrido rapidamente. Olhe eu só vou ali buscar o microfone ao meu colega, se quiser dizer algo a alguém que esteja em casa, preocupado consigo.

         - Ninguém está preocupado comigo…

         - Não acredito, olhe à sua volta. Vê aqueles homens e mulheres… Ouviu os gritos quando se tentou largar. Todos somos sensíveis à vida humana, e muitos estão dispostos a ajuda-lo no que for preciso.

Paulo coloca-se agora na posição inicial…

Rita vagarosamente aproxima-se no microfone e o operador de câmara aproxima-se com ela.

Rita continuou:

         - Há alguma mensagem que você queira realmente passar para quem o está a ouvir. Os motivos do seu desespero. A solução para o seu problema. Todos estamos à espera de o ouvir.

         - Sim, há uma coisa que eu quero dizer. Íris, desculpa, eu sei que me estás a ouvir…

 

Todos os outros repórteres interrogavam-se perto da zona onde se encontrava a multidão.

         - Quem é a Íris? Ele está a falar de uma Íris!

Gritos entre a população amontoada faziam-se ouvir.

         - Sou eu, deixem-me passar! É comigo que ele quer falar!


A multidão apercebe-se do sucedido e afasta-se progressivamente para que Íris possa salvar o homem que desesperadamente lutava contra si mesmo.

Chega então ao local onde s e encontrava o corpo de intervenção.

         - Minha Senhora, não pode passar!

         - Sr. Policia, ele está a dizer o meu nome, por favor!

A policia hesitou, olha para o comandante, que abana a cabeça dizendo que não pode passar.

         - Você não está a perceber, a vida daquele homem pode depender de mim. Deixe-me passar!

Percebendo que Íris podia ter razão, o polícia cedeu.

Íris correu por debaixo já chuva que se fazia sentir. Seus cabelos pretos molhados saltavam ao mesmo passo da correria. As lágrimas estavam disfarçadas… Eis que fatigada, abranda o passo e Paulo vê-a

 

         - Íris, foi a única mulher por quem me apaixonei, a única a quem eu contei os segredos absurdos e as loucuras. A Íris foi a mulher – menina que conheci com quem nunca namorei com medo de estragar a perfeição daquela relação - E um dia, um de nós não esperou, não se declarou e simplesmente separou anos em sintonia… Agora revia, após mais de uma década de desencontro, acabei por recordar todo o sentimento que nos unia, e acreditei que podia ficar com ela. Porque eu sei Rita, eu sei que ela me ama. Eu sei que ainda a faço sorrir como antes, e sei como ainda treme quando me aproximo. E sei que fala, fala, fala, e eu, só ouço metade do que ela diz. Mas no silêncio, ela diz mais do que gostava dizer. Mas ela não luta Rita. Não luta porquê?

Rita estava agora ainda mais abalada. Apercebeu-se que alguém se aproximou e ambos estavam colados a olharem um para o outro. Íris e Paulo, com todos os sentimentos à flor da pele. Rita decidiu-se afastar.

Íris estendeu a mão. Paulo olhava-a sem saber o que fazer. Falava, falava, falava, como nunca falou antes. Para Íris já era barulho de fundo, já só desejava Paulo nos seus braços, naquele abraço puro e verdadeiro, como já tinha saudades de sentir.

         - Anda Paulo, vamos sair daqui.

Paulo voltou-se, para o lado anterior da ponte, mas um pé, falhou o alvo. Encontrava-se de novo a completamente pendurado, àquela altura onde mal se via o fim, não fosse os helicópteros iluminarem o rio Tejo.   

Íris e Rita, e puxaram-no para o lado de dentro da ponte.

Caídos no chão, recompunham-se lentamente. Abraçaram-se Íris e Paulo, num longo abraço, gélido, tremido, carente, mas puro.

         - Paulo promete-me que nunca mais terás um devaneio mental de tal ordem, ou então iremos os dois conhecer os peixinhos do rio Tejo. – Tentava quebrar o gelo existente naqueles corpos amarrados.

Paulo sorriu

         - Promete-me que vais tentar Íris, promete-me.

         - Ninguém sabe Paulo, ninguém imagina quanto tempo em penso em ti, no que fomos. Nas loucuras que passamos juntos. Na verdade que constantemente nos magoava, porque usávamos e abusávamos dela. Ninguém imagina que… que eu ainda gosto de ti daquela forma. E que adoro o teu cinismo e as tuas loucuras, e a tua maneira de ver o mundo. Mas imagina tu, como vão reagir os meus filhos agora que me viram a chorar abraçado a um homem que para eles era só “o amigo da mãe”? O que está agora a pensar Filipe, depois de tudo isto? Nem quero imaginar!

         - Mas então porque vieste? – Perguntava Paulo.

         - Porque… Olha porque quando percebi que estava perto de te perder assim, para sempre… Que não podia deixar. Percebi que … de facto te quero. Paulo, eu estou disposta a lutar. Mas dá-me tempo, por favor dá-me tempo.

         - Todo o tempo do mundo, Íris. Todo o tempo do mundo.


Toda a equipa estava de volta deles, com cobertores e todo o material necessário a que eles não entrassem em hipotermia.

Naquele momento o povo aplaudia e ouviam-se gritos de felicidade. Saiu do meio da multidão Patrícia, com olhar de fúria olhou ambos.

Num momento de fraqueza, pareceu que voltava de novo para o meio da multidão, mas tudo em falso. A coragem renasceu naquele intervalo de segundos, e caminhava até juntos deles com brutidão.

Paulo agarrou a mão de Íris, e disse aos Bombeiros que o assistiram, para os deixarem aos três a sós.


         - Como foste capaz? Íris!!! Tu? Que chorei nos teus braços! Tu tens consciência que eu ainda o amo? Tu tens consciência das noites que eu passo em claro a pensar na mulher que lhe ocupava a mente? Íris, não prestas. Sabias desde o início que era em ti que ele pensava, e nunca foste capaz de me dizer!!! És uma covarde, não vales nada Íris! Nada. Para mim, vocês hoje, saltaram os dois daquela ponte, e eu?! E eu?!!! Eu nem vou ao funeral! – Desabafou Patrícia!

-Patrícia, eu não te queria magoar, até porque eu nunca desejei ficar com o Paulo!

         - Mentirosos, vocês são os dois uns grandes mentirosos! Há quanto tempo Paulo? Há quanto tempo me olhavas e querias que eu fosse ela? Há quanto tempo me enganavas. Há quanto tempo, eu e o Filipe estaríamos a ser traídos!!!

         - Não te admito Patrícia, tenho o maior respeito por ti, e se a traição tivesse que acontecer então eu nem precisava de te deixar! Eu estou sozinho à dois anos. Há dois anos que Íris nem me falava. Porque é que achas que eu estava do outro lado da ponte? Porque te tinha deixado a ti, estava sozinho, desisti de tudo para que Íris ponderasse a hipótese de lutar. Mas a Íris, nunca mas nunca me deu esperanças. Agora vais lutar, não vais Íris? – Paulo voltava-se agora mais calmo para Íris suplicando-lhe um sentido para a vida dele.

         - Sim, Paulo, agora sim!

         - Vocês metem-me nojo. O Filipe e os teus filhos vão adorar saber!!!


continua...


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publicado às 22:15

5º Capítulo - Pensar em papel

por Catarina Portela, em 24.04.13

 

Fotógrafo: Octávio Meira

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“O sonho comanda a vida” já dizia António Gedeão. Num país de criatividade, imaginação, de aventureiros e homens que arriscaram a vida para conhecer o mundo, aprendemos a falar de amor, a crescer ouvindo citar Camões, Amor…” É querer estar preso por vontade, é servir quem vence o vencedor”.


E como, pergunto eu… Como é que desistimos de descobrir alguém que nos completa, nos causa arrepios de prazer, e nos faz sorrir enquanto se faz amor?

Como, pergunto eu… Como se pode desistir de amar a vida, de te amares a ti mesmo?

Como podes conseguir odiar a todos, matar a esperança, desejares a tua própria morte como solução à vida?


Aqui algures, num mundo cheio de tudo, existe uma percentagem de pessoas, que nunca está satisfeita até encontrar o consenso entre o amor e a vida-de-todos-os-dias. 

Existe alguém que desiste de tudo, para ir atrás de uma paixão. Sacrifica anos, economias de uma vida e por vezes a própria família, para que a loucura o conduza a um local que está acima de um comum mortal. Onde a felicidade existe, onde os abraços são alimento para a mente, onde os olhos cintilam mais que as próprias estrelas, onde as saudades aparecem bem antes dos amantes se separarem.


Porque existem Homens, Homens sim, que correm atrás do que é irracional, e maioritariamente até podem concluir que não valeu a pena, porque anos mais tarde, toda aquela luta foi demasiada, para o que sobrou da relação.

A maioria da população não está disposta amar, mas quem ama, orgulha-se de tudo o que alcançou. Essa luta é digna de troféu, sobretudo pela raridade de pessoas que estão dispostas a correr riscos, para atingir o auge da felicidade.


Não é fácil travar batalhas que já estão perdidas, assim como não é fácil aperceber-se que atrás da pessoa pelo qual se moveram montanhas, estava alguém que vale apenas, pelo sentimento que existiu, porque o demais, vê-se apenas lá ao longe.

O conforto de uma relação sólida, plena em sentimentos que nos fazem sentir bem, é um trabalho de todos os dias. Quando esta certeza falha, as atitudes adolescentes descem sobre nós. Fazem-se e desfazem-se vidas. Tudo para alcançar uma forte união que nos complete mais que a união anterior.


Por vezes a procura de outra cara-metade, finda. Não porque o amor já não é pleno, intenso, nem cheio de sorrisos e beijinhos. Mas sim porque o Homem se mentaliza que não existe melhor, ou porque conclui que independentemente da pessoa que esteja a seu lado, será eternamente insatisfeito. Encontrando esta frase na mente, a vida passa a correr melhor, pelo menos com mais certezas em relação ao que deseja.

Os que conservam a esperança do amor, sorriem e abraçam-se, não para se mostrarem à sociedade, mas porque aquele sentimento, que muitos matam por não saberem procurar, lhes preenche o coração, e lhes dá a força para alcançar tudo o resto.


Os descrentes limitam-se a espalhar a notícia de que não vale a pena sonhar, nem disputar por uma vida mais preenchida. Ficam apenas com o seu comodismo exacerbado, corroendo a sociedade à sua volta. Pode-se dizer, que é tudo uma questão de prioridades. Podes escolher uma felicidade que depende do que possuis, ou então colocas a tua felicidade no sentimento de uma outra pessoa…


Ignorantes são os que condenam o seu estilo de vida, só porque não seguem as mesmas prioridades…

Que fiquem crescidos, enquanto os restantes sorriem com a adolescência eterna, e com o brilho no olhar que os distingue dos ditos “adultos” que se caracterizam pela frieza e falta de esperança nos sonhos, e no amor.

Os que defendem a paixões platónicas são talvez mais insatisfeitos, mais exigentes na relação com os outros, menos materialistas, e arriscaria a dizer que são talvez menos felizes, só e apenas porque esses momentos de felicidade, não dependem apenas de deles próprios.


Colocar a felicidade nos bens materiais, como a casa, um carro, um filho na faculdade de medicina, direito, ou até arquitectura, é talvez bem mais fácil de manipular, do que investir esse tempo no coração de alguém, que nem sequer é do teu sangue.

Arranjas um bom emprego, estável e rentável, e colocas tudo em “modo automático”. Não fazes mais nada. Já está tudo pronto para o sucesso. Depois, quando uma grande crise arrasa as economias, nem o casamento sobrevive, porque já não há dinheiro que lhe traga felicidade.


Também pode acontecer o contrário, ou seja, tornarem-se unidos como se sofressem de mutualismo, pois necessitam um do outro para atingirem de novo a segurança económica, tal como a abelha e flor beneficiam da associação.


Prioridades, é tudo uma questão de prioridades…

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publicado às 22:00

5º capítulo - Solidão

por Catarina Portela, em 23.04.13

 

Fotógrafo: Octávio Meira

http://esposendeimagens.blogspot.pt/



A repórter Rita deixa cair o microfone, sai debaixo do guarda-chuva e corre para Paulo.

         - Sr. Paulo, dê-me já imediatamente a sua mão!

Enquanto Paulo se contorcia de horror para chegar à mão de Rita, Rita já gritava.

         - Afastem-se seus parvos!!! Para trás, toda a gente!

 

Em casa da família Martins, soltou-se um grito. Íris amarrava o televisor.

         - Por favor… Não, diz-me que não! Diz-me que não!

Susana assustou-se com os gritos e saiu disparada do quarto.

         - Que se passa? Mãe, estás bem?

         - É o Sr. Paulo, está na Ponte Vasco da Gama e acabou de cair… - contava estupefacto Filipe, enquanto aconchegava Íris.

         - Não pode ser, têm a certeza que é ele? – Até Susana tinha dificuldade em acreditar.

Esperavam ansiosos por novas notícias, até que a câmara se aproxima, colocando em grande plano a repórter que tentava afastar os seus colegas, tentando alcançar a mão de Paulo…

         - Não posso ficar aqui sem fazer nada! – O desespero e o sentimento de culpa, apoderava-se de Íris.

Pegou num casaco bem quente, bateu a porta e saindo limpando gotas salgadas de um rosto incrédulo.

Ligou no carro. Morava na Rua Florbela Espanca, em Alcochete, a viagem demoraria cerca de dezassete minutos, isto claro, se ela não infringisse a lei.

         Era uma noite escura, desprovida de luz estrelar, só o rádio fazia companhia a Íris. Ouviam-se gritos de desespero. Os repórteres bombardeavam os ouvintes de questões, pediam informações do homem preso ao desânimo. Mas muito já eles sabiam…

- Paulo Ramalho de 44 anos, reside no Montijo e divorciou-se de Patrícia Cruz há cerca de 2 anos. Não tinham filhos e nada faria supor um procedimento de tal ordem. Paulo nunca revelou comportamentos suspeitos. – Comentava um repórter da TSF.

Paulo sempre teve uma vida feliz até se ter cruzado com Íris, e perceber que o seu casamento era um erro. O processo do divórcio deixou-o devastado. Passou a morar sozinho.

O sofrimento que se apodera com a chegada da solidão, é incalculável. Ouve-se o eco na casa. Liga-se o televisor para se ouvir uma companhia etérea que não responde aos chamamentos. As paredes tornam-se frias, e perde-se o perfume original que outrora existira.

A comida não sabe ao mesmo, e a família torna-se o papel importante para o apoio desta nova fase da vida. Somos confrontados com a culpa de sermos um peso e uma preocupação para a vida dos outros. Queremos pagar a companhia, o afecto e a recepção, porque sentimos que estamos a ocupar um espaço que não é nosso.

Esconde-se as lágrimas por entre a noite, distrai-se a mente com todas as ocupações possíveis. Mas muitas das vezes, todo o trabalho é pouco, para que não venha à memória o tempo da vida a dois, a três, a quatro…

Sonha-se ter de novo o amor, ou melhor, a companhia, mesmo que não seja o amor platónico. É tudo o que é necessário para uma estabilidade emocional, afinal o Homem não foi feito para viver sozinho. A solidão cria-se então, do nada, literalmente do nada.

 

A mente de Paulo não aceitava o facto de estar sozinho e depender dos seus familiares. Como se não bastasse acabou uma relação sólida, com Patrícia, ao qual não lhe conseguia atribuir um único defeito válido. Íris, o amor platónico de Paulo, não está disposta a desistir da família que criou, mesmo sabendo que não está feliz com o homem com que casou.

Tudo isto marcava Paulo que continha uma angústia atroz. Paulo não acreditava, como a Sociedade se deixava enganar pelo comodismo, em vez de lutar pelos sonhos e pela felicidade. Quando olhou para o seu lado, apercebeu-se que a maior parte dos seus amigos lhe diziam que não amavam a sua mulher, no entanto já não se imaginavam a viver sem ela. Mas ele imaginou, e agora não estava a saber lidar com a situação.

 

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publicado às 21:00


Escrevam para catarinaportela86@gmail.com e contem a história da sua vida. Um momento trágico, uma alegria sem fim, um aperto no coração, uma desconfiança. Para que eu possa dar vida às suas palavras. Se desejar não publico o seu nome.

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